"Tudo o que é sólido se desmancha no ar."
K. Marx
Resumo: O presente trabalho é exposição analítica sobre o texto de Marx, “Salário, preço e lucro’’, que se encontra na coleção “Os Pensadores”.
A realização da exposição dos argumentos, por ser analítica, seguirá o que BLOOM (1971:121) propõe como análise de obra, qual seja: Identificação e classificação dos elementos; explicitação das relações entre tais elementos e reconhecimento dos princípios de organização.
Introdução.
O analisado texto de Marx se divide da seguinte forma:
*Oferta e procura;
*Salários e preços;
*Valor e trabalho;
*Força de Trabalho;
*A produção da mais-valia;
*O valor do trabalho;
*As diversas partes em que se divide a mais-valia;
*A relação geral entre salários, lucros e preços;
*Casos principais de luta pelo aumento de salários ou contra sua redução;
*A luta entre o capital e o trabalho e seus resultados;
Notas.
A respeito das 34 notas apresentadas ao longo do texto, não consta ser nenhum feita pelo próprio Marx, sendo, pois, notas do editor e do tradutor.
Conceitos.
Os conceitos mais apresentados, e mais significantes no entendimento da obra, são os seguintes:
*Trabalho;
*Mercadoria
*Mais-valia;
*Oferta e procura;
*Preço;
*Valor;
*Salários;
*Lucro.
“Salário, Preço e Lucro” : Análise dos argumentos.
Ao adentrar o capítulo intitulado “Oferta e Procura” temos no primeiro parágrafo a afirmação feita por Weston de que “a redução dos meios de pagamento resultante de um aumento dos salários, determinaria uma diminuição do capital” (p.70).
Marx faz objeções ao argumento de Weston, as quais serão dispostas em várias partes do texto, a fim não só de elucidar os problemas, como também de contra-argumentar o que afirmar o “cidadão Weston”.
Ainda neste capítulo temos, no segundo parágrafo, o levantamento de um problema sobre a questão do salário baixo e alto, expressão esta que só faz sentido mediante uma comparação, e para tanto o exemplo dado é o de um termômetro, por este apresentar variações, ora estando o mercúrio baixo, ora alto.
Seguindo na leitura vemos o conceito da oferta e da procura , importante para o entendimento do que se discuti na obra, mas que por enquanto será apenas citado, seguindo de uma ponderação dada no próprio texto
“[...] poderá dizer-me por que se paga uma determinada soma de dinheiro por uma determinada quantidade de trabalho. Se me contestasse que isto ocorre por conta da lei da oferta e da procura, eu lhe pediria, antes de mais nada, que me dissesse qual a lei que, por sua vez, regula a da oferta e da procura” (p.70)
A abertura do capítulo “Salários e preços” reduz a uma expressão teórica a afirmação de Weston, que se traduz num dogma “Os preções das mercadorias são determinados ou regulados pelos salários” (p.71).
Marx demonstra que esta afirmativa de Weston equivale à outra, a de que “o valor das mercadorias é determinado pelo valor do trabalho”. Esta afirmação, ou dogma, como fora expresso acima, não responde a questão de como se determina o valor do trabalho, e se responde é mero círculo vicioso, como aponta o filósofo - em outras palavras, uma falácia do tipo petitio pincipii , pois equivale dizer “o valor se determina pelo valor” (p.73).
O capítulo é encerrado dando crédito a Adam Smith, por este ter rechaçado a falácia “os salários determinarem os preços”.
Dito isso, a questão da mercadoria começa a ser aprofundada. Segue a argumentação de que as mercadorias assumem o caráter de troca.
Ora, falar de valor de uso é o mesmo que conceber um trabalho concreto, ou seja, “eu produzo para o meu próprio consumo”. Entretanto, ao adentrarmos o cerne da questão da troca, já não mais é dito trabalho concreto, e sim abstrato.
Marx parte a procura de entender qual seria o valor da mercadoria, e como se daria este valor, de tal modo a possibilitar a troca de uma mercadoria por outra.
Para esclarecer o alvo da discussão basta o exemplo: De um quilo de batata sendo trocado por dois de açúcar.
Um passo na resolução do impasse é dado no quinto parágrafo do sexto capítulo, onde encontramos a explanação de que “cada um destes dois objetos [no exemplo dado a batata e o açúcar] deve poder reduzir-se, independentemente um do outro, àquela terceira coisa, que é medida de ambos [terceira coisa: não é nem batata, nem açúcar]” (p.74)
A questão reside, ainda, no problema da troca, que mesmo apresentando como resposta a questão da ‘’terceira coisa’’, é necessário que entendamos que a troca das mercadorias não passam de funções sociais, e nada têm a ver com suas propriedades naturais, devemos antes de mais nada perguntar: Qual é a substância social comum a todas as mercadorias? A resposta será o : trabalho (grifo nosso).
Em outras palavras, o trabalho social é a substância comum a todas as mercadorias, já que para produzir uma mercadoria tem-se que incorporar a ela uma determinada quantidade de trabalho. Nesse aspecto, o que distingue uma mercadoria de outra não é senão a quantidade de trabalho, maior ou menor, nelas cristalizado; quantidade de trabalho que se mede pelo tempo que dura o trabalho. "Portanto - dizia Marx - os valores relativos das mercadorias se determinam pelas correspondentes quantidades ou somas de trabalho investidas, realizadas, plasmadas nelas".
No décimo parágrafo do sexto capítulo [Valor e Trabalho], citando um ensaio de Benjamim Franklin temos o desenvolvimento de outro argumento, que será fortemente sustentando por uma frase, da página seguinte [76]. O argumento versa sobre a diferença entre preço e valor, para tanto o próprio Marx afirma:
“A determinação dos valores das mercadorias pelas quantidades relativas de trabalho nelas plasmado difere, como se vê, radicalmente, do método tautológico da determinação dos valores das mercadorias pelo valor do trabalho, ou seja, pelos salários” (p.76)
Com isso, deve-se verificar o valor que esta mercadoria tem, dentro de um contexto social, e isso pode não ter elação com o preço que ela terá no mercado, pois este é regido, dentro do capitalismo, pelas flutuações proporcionadas pela lei da oferta e da procura.
Nas duas seguintes páginas [77-8] Marx abordará a idéia do tempo com relação ao trabalho, para tanto um exemplo seria de eficácia para explicar o que se explana nesta referidas páginas.
Suposto que um tecelão demorava 8 horas para a produção de um metro de tecido.
Com a chegada da fábrica, a mesma produzia um metro de tecido em apenas uma hora.
Logo, sua mercadoria era mais barata, levando os tecelões a falência, e estes, por sua vez, virariam mão de obra barata nas indústrias, dando mais lucro ao capitalista.
Fiquemos com a clara afirmação: “Os valores das mercadorias estão na razão direta do tempo de trabalho invertido em sua produção e na razão inversa das forças produtivas de trabalho” (p78)
Nesse ponto o raciocínio de Marx deparava-se com a seguinte questão: de onde provinha mesmo o lucro? Se uma mercadoria é vendida pelo seu valor, a força de trabalho, que é uma mercadoria, também é vendida pelo seu valor . E esse valor é determinado, como vimos, pelo tempo de trabalho necessário para produzir a mercadoria. Então o valor da força de trabalho é determinado pelo tempo necessário à sua conservação e reprodução, ou seja, "pelo valor dos artigos de primeira necessidade exigidos para produzir, desenvolver, manter e perpetuar a força de trabalho.” Aparentemente, toda a força de trabalho que o operário despendeu é remunerada pelo patrão ao final de uma semana, por exemplo. Mas essa é uma aparência enganadora, pois o capitalista, ao comprar a mercadoria força de trabalho, passa a ter direito de servir-se dela fazendo-a funcionar durante todo o dia, sucessivamente. E aqui é preciso entender que o valor da força de trabalho é completamente distinto de seu funcionamento.
Nas páginas que seguem, ou seja, da página 80 até metade da página 94, Marx tratará da força de trabalho enquanto mercadoria, como também da mais-valia e da parte não remunerada da mercadoria. Entretanto, é necessário entender que o papel do filósofo, ao apresentar todos os aspectos abordados até aqui foi para entender de onde provem este lucro dentro da sociedade capitalista.
“O valor da força de trabalho se determina pela quantidade de trabalho necessário para a sua conservação, ou reprodução, mas o uso desta força só é limitado pela energia vital e a força física do operário. O valor diário ou semanal da força de trabalho difere completamente do funcionamento diário ou semanal desta mesma força de trabalho; são duas coisas completamente distintas, como a ração consumida por um cavalo e o tempo em que este pode carregar o cavaleiro.” (p.83)
Vemos é a ilusão do trabalhador de, por exemplo, trabalhar 12 horas, e achar que está recebendo por todas estas horas trabalhada. Na verdade o trabalhador esta, durante este montante de horas, gerando lucro para o capitalista.
A força de trabalho do operário, vendida ao capitalista, incorpora-se a um produto que se vende no mercado por um valor superior a seu custo de produção. A diferença entre o valor final do produto e o custo de produção constitui a mais-valia, o excedente ou valor acrescentado pelo trabalho. O custo de produção é a soma do valor dos meios de produção (maquinaria e matérias-primas) e do valor da força de trabalho, este expresso em bens indispensáveis à subsistência do operário e sua família . A mais-valia, portanto, converte-se em lucro para o capitalista.
Marx distingue dois tipos de mais-valia, a absoluta e a relativa, que se definem pela maneira como são aumentadas. A mais-valia absoluta aumenta proporcionalmente ao aumento do número de horas da jornada de trabalho, conservando-se constante o salário. O valor produzido pelo trabalho nesse tempo adicional corresponde à mais-valia absoluta. Assim, quanto mais horas o operário trabalhar, maior será o lucro do capital, isto é, a mais-valia absoluta, e sua acumulação. A mais-valia relativa aumenta com o aumento da produtividade, com a racionalização do processo produtivo e com o aperfeiçoamento tecnológico.
A obtenção de mais-valia conduz à acumulação do capital expressa na concentração fabril e empresarial e no progresso tecnológico incorporado à maquinaria das grandes indústrias. O uso de máquinas cada vez mais produtivas elimina periodicamente parte da força de trabalho. Os operários dispensados engrossam o "exército industrial de reserva" (os desempregados) em situação de concorrência que favorece a redução dos salários e a pauperização da classe operária.
Nas páginas de número 85/6 o filósofo expõe que o capitalista não embolsa o lucro, propiciado pela mais-valia, na sua totalidade, tendo, pois, que dividir entre , a renda territorial, ou seja, permite ao proprietário da terra embolsar uma parte, como também uma segunda fica para o capitalista que empresta o dinheiro. Com isso, a renda territorial, o juro e o lucro industrial não mais são que nomes diferentes para exprimir as diferentes partes da mais-valia de uma mercadoria ou do trabalho não remunerado, que nela se materializa, e todos provêm por igual desta fonte e só desta fonte. Logo, máquina e matéria-prima não produzem lucro algum.
Marx, no sentido de orientar a luta salarial examina a dinâmica da disputa entre lucros capitalistas e salários dos trabalhadores, sob diversos cenários:
*Aumento da produtividade ou diminuição da produtividade do trabalho, variações que decorrem de tal ou qual força produtiva do trabalho seja empregada.
*Aumento do preço em dinheiro dos gêneros de primeira necessidade sem que haja variação do valor da força de trabalho do operário.
*Alongamento da jornada de trabalho.
*Influências das fases do ciclo econômico - de calma, de animação crescente, de prosperidade, de superprodução, de estagnação e crise - sobre os salários e a luta salarial.
Conclusão.
Temos que nos questionar, enquanto leitores ativos, ou seja, aqueles que pensam a obra, levantando questões e contra-argumentando.
“Salário, Preço e Lucro’’ revela um homem que não mais um trabalho livre, antes, tem que trabalhar para comprar produtos de primeira necessidade, mas não só isso, pois, num mercado onde encontramos uma segunda natureza, ou seja, tudo está pronto, somos antes encantados pelo caráter fantasmagórico, para usar o termo dado por Baudelaire, das mercadorias, levando-nos, quais ‘’fantasmas’’, a comprar de forma alienada, sem saber o que estamos fazendo, ou por que estamos comprando esta e não aquela mercadoria. Nos arriscamos aqui a dizer que se Adorno interpretou de nova maneira o Imperativo Categórico de Kant , na sociedade alienante do capitalismo, diferente do que concebia Descartes, não mais existimos por que pensamos, e sim porque compramos, ou seja, compro logo existo. Essa afirmação, ao olhar de um lingüista, pareceria de um caráter esdrúxulo, mero jogo de palavras (cacofonia). Entretanto, estamos trabalhando com conceitos neutros, de tal modo que se fazemos uso desta troca no cogito cartesiano, é antes para alertar sobre a condição do homem no regime capitalista, para que assim, como Marx expõe nas 5 últimas páginas de seu livro, “Salário, preço e lucro’’, ocorra uma luta entre o Capital e o trabalhador, pois, segundo o autor, á tarefa do trabalhador fazer isso.
Temos que entender que a tendência do capital fiscal não é elevar os salários e sim diminuí-lo, e que se gasta muito mais com matérias-primas e maquinaria, do que com o próprio trabalhador, e não é só isso, o capital destinado à estes dois fins, maquinas e matéria-prima, cresce muito mais rápido que o destinado aos trabalhadores.
A obrigação de um leitor atento é ainda desmentir os capitalistas, no exato momento em que estes pregam o falso argumento de que o aumento de salários gera inflação, porque, como podemos verificar com a leitura da obra, o salário tem que ser avaliado tendo em vista o grandioso lucro do capitalista.
Terminamos esta exposição com uma sugestão do próprio Marx aos trabalhadores, de que estes coloquem em sua bandeira: “Abolição do sistema de trabalho assalariado.” (p.99)
É isso!
Preso à minha classe e a algumas roupas,
vou de branco pela rua cinzenta
Melancolia, mercadorias espreitam-me.
Devo seguir até o enjôo?
[...]
As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase
[...]
Crimes da terra, como perdoá-los?
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Drummond, C: ”Antologia poética”.
Nenhum comentário:
Postar um comentário