terça-feira, 7 de outubro de 2008

GOTEIRA

Engraçado, meus lábios contraem-se inseguros. Veja aquela goteira que, há mais de uma semana, não se detêm.
Há sete manhãs, tardes, noites e madrugadas, parado eu aqui, nessa cadeira de madeira velha aveludada, fico a ver o som das gotas que tocam o fundo de um balde azul pálido de metal.
Sete baldes já foram necessários para suportar essas gotas tão finas que, aos poucos, transformam-se em cachoeiras se não contidas a tempo...
O orifício que permite a vazão dessas gotas é encontrado em um cano colado ao teto de uma parede de concreto já desgastado com os ponteiros, úmida.
A estrutura de cimento e areia, aos poucos, em decorrência dessa umidade, começa a exibir um bolor acinzentado e esverdeado - cor de dias chuvosos.
Se quiser, pode chegar mais perto para tocar a água que escorre pelo chão – sinta! O ambiente está encoberto, não é? Esse canto parece a dias chuvosos e invernais. Tudo é doente e frio...
Ainda existe uma cadeira ao meu lado sem ocupante. Estou pensando em lhe chamar para ficar comigo a refletir sobre as gotas aquosas. Se você começar a contar, em um minuto, terão saído daquele pequeno e estreito buraco, 44 gotas. O concreto da parede não tem coloração – é branco encardido. Está todo cicatrizado. Veja, eu posso com minhas unhas retirar a camada de uma fina tinta que se despedaça em segundos - camadas.
Está gelada a parede!
Eu queria dormir um pouco... só um pouquinho. Acontece que desde que percebi que neste canto existia esta goteira, fiquei preocupado se a goteira, aos poucos, não inundaria o local todo. Para evitar isso, eu fico acordado trocando os baldes - o cheio pelo vazio. É divertido. Só um pouco estafante. O som suave compensa a dor.
Uma coisa me preocupa: os baldes estão acabando.
Gustavo Pilizari

2 comentários:

  1. Bom texto. Alguma coisa de furioso e engustiante em estar em tal atmosfera e ver as gotas caírem. É como se contemplassemos o tempo futuro que nos espera. Tempo que nos carcome.
    Posso me sentar a seu lado?
    Não tenho muito tempo, quiçá paciência para apreciar as gotas. Mas sempre há tempo para trocar idéias. Talvez eu tenha tempo para 63.360 pingos. Pouco mais. Pouco menos.
    Preferiria brincar com elas, reúni-las em pequenos copos com sabão e fazer bolhas tão breves quanto o pingar da goteira.
    Um abraço.

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  2. Hoje, e espero que só hoje: eu sou o balde, no qual a gota pinga, e o qual está acabando.
    Bom te ver nas gotas querido Gustavo.

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